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ENTREVISTA ][ Roberto Valladão Flores detalha nova gestão da Embrapa Pesca, Aquicultura e Sistemas Agrícolas

ENTREVISTA ][ Roberto Valladão Flores detalha nova gestão da Embrapa Pesca, Aquicultura e Sistemas Agrícolas

Data de Publicação: 12 de dezembro de 2025 09:32:00 Em entrevista exclusiva, Roberto Valladão Flores, novo chefe-geral da unidade, prioriza BRS Aqua, inteligência estratégica e transferência de tecnologias no Brasil, sem perder o foco no MATOPIBA.

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Por Antônio Oliveira

Em entrevista a este editor, o novo chefe-geral da Embrapa Pesca, Aquicultura e Sistemas Agrícolas, Roberto Valladão Flores, detalhou os pilares que o levaram à vitória no processo eletivo e as prioridades imediatas de sua gestão, que se inicia em janeiro. Flores destacou que os pilares de sua proposta foram: aprofundamento de parcerias, melhoria do clima organizacional com gestão participativa, e foco em resultados finalísticos de alto impacto para o setor, especialmente a pesca e a aquicultura. No primeiro semestre, a prioridade máxima será o realinhamento e fortalecimento do Projeto BRS Aqua. O gestor também prometeu focar na viabilidade econômica dos produtores e em tecnologias de vanguarda, como a edição genômica e o Baixo Carbono, essenciais para a competitividade brasileira.

Segue a íntegra da entrevista.

Antônio Oliveira - Dr. Roberto, quais são os pilares centrais de sua proposta de gestão que, na sua opinião, foram decisivos para a sua vitória?

"O Tocantins, por exemplo, teve um crescimento
significativo de cerca de 30% na aquicultura
no último ano" (Foto: Clânio Araújo/Embrapa)
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Roberto Valladão Flores - Primeiramente, eu gostaria de ressaltar a importância deste processo eletivo e técnico dentro da Embrapa. É um diferencial que garante a segurança e a credibilidade da seleção, buscando analisar o currículo e o histórico dos candidatos, o que nos distancia de indicações meramente políticas. Sinto-me muito honrado e seguro por ter sido escolhido para iniciar esta gestão no próximo ano.

Em relação aos pilares centrais de nossa proposta, que acredito terem sido decisivos, destaco três áreas principais:

1.  Aprofundamento de parcerias e relacionamentos

Vamos focar intensamente em aprimorar o relacionamento da unidade. Embora tenhamos avançado, precisamos aprofundar muito a conexão com outras unidades da Embrapa, com parceiros do setor produtivo e com instituições nos níveis estadual e federal. O objetivo é trabalhar mais em parceria para gerar resultados de maior alcance para a sociedade.

2. Clima organizacional e gestão participativa

Dedicaremos uma grande atenção ao clima organizacional. Nossa gestão será mais próxima dos pesquisadores e demais colegas, buscando ser mais participativa para que possamos atender melhor aos anseios e valorizar o capital humano da unidade.

3. Foco em resultados finalísticos e de alto impacto

O terceiro pilar é atender o que o setor precisa de fato, tanto para as áreas específicas (pesca e aquicultura) da nossa unidade (em nível nacional), quanto para todo o Estado (Tocantins). Nossa unidade está em um momento muito bom, com novos projetos e captação de recursos. Agora, o foco é chegar mais na ponta, entregando resultados finalísticos e de alto impacto que beneficiem diretamente os consumidores e a população.

Antônio Oliveira - Dr. Roberto, com a posse em janeiro, quais serão as três prioridades imediatas e inegociáveis de sua gestão para este primeiro semestre?

Roberto Valladão Flores – Essa é uma excelente pergunta, Antônio. Dada a importância e a urgência do primeiro semestre, definimos três frentes de trabalho prioritárias para iniciar a gestão com o máximo de impacto:

  1. Realinhamento e fortalecimento do projeto BRS Aqua

Nossa principal prioridade é o realinhamento e a continuidade do Projeto BRS Aqua. Este é um projeto muito importante e de grande escala da Embrapa, no qual nossa unidade atua como líder, em parceria com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social) e o Ministério da Pesca e Aquicultura. É uma enorme oportunidade para fortalecer a rede entre parceiros e unidades, focando na aquicultura das principais espécies produtivas. Daremos um foco grande e imediato a ele.

2.  Estruturação da inteligência estratégica da unidade

A segunda prioridade é criar uma estrutura robusta de inteligência estratégica. Isso está diretamente ligado à nossa meta de gerar resultados finalísticos, como mencionei anteriormente. Temos cerca de 30 projetos em andamento, mas sem uma inteligência estratégica—alimentada por estudos, dados e consulta a parceiros—corremos o risco de perder o foco. Portanto, vamos aprimorar o direcionamento da pesquisa para garantir que ela atenda exatamente às demandas mais urgentes do setor produtivo e da população.

3.  Posicionamento e fortalecimento da Rede MATOPIBA

Por fim, vamos fortalecer a nossa rede e o posicionamento da Embrapa no MATOPIBA. O Tocantins é um estado central nessa região e a nossa unidade precisa se posicionar de forma mais estratégica para maximizar a sua importância regional. Já estamos reforçando a equipe que atua nesta área. Essa articulação é crucial para a execução dos programas da Embrapa e para a entrega de resultados específicos para o desenvolvimento da região.

Antônio Oliveira - Na área de inovação e economia, e dado o seu background em pesquisa econômica, como o senhor planeja integrar a análise de viabilidade econômica e financeira e a avaliação de impacto socioeconômico nas estratégias de pesquisa e transferência de tecnologia da unidade?

Roberto Valladão Flores - Essa é uma área importante. Nossa unidade já é referência no cálculo do balanço social da Embrapa, que avalia o impacto socioeconômico de nossas pesquisas. Vamos continuar aprimorando essa avaliação dos resultados finalísticos. Além disso, é crucial focar na viabilidade econômica do produtor e do setor produtivo. Isso será feito aprofundando as pesquisas econômicas em todas as áreas que atuamos. Vamos reforçar a equipe com novos pesquisadores e os que estão retornando (incluindo foco no MATOPIBA), e investiremos em novos projetos para acompanhar custos e comércio internacional. Todos esses dados econômicos e de viabilidade se interligam diretamente com a nossa inteligência estratégica, subsidiando as futuras direções da nossa pesquisa.

Antônio Oliveira- Dr. Roberto, dada sua experiência como ex-chefe de Transferência de Tecnologia, como o senhor planeja aprimorar a ponte entre o conhecimento gerado pela Embrapa e a aplicação prática junto aos produtores rurais?

"O Tocantins, por exemplo, teve um crescimento
significativo de cerca de 30% na aquicultura
no último ano" (Foto: Clânio Araújo/Embrapa)
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Roberto Valladão Flores: A transferência de tecnologia sempre foi um pilar forte em nossa unidade, com grandes projetos que conectam as tecnologias da Embrapa ao setor de extensão rural, assistência técnica e outros parceiros. Vamos aprofundar esse trabalho, principalmente na área de aquicultura. Embora tenhamos projetos relevantes em pecuária, grãos e mandioca, sentimos a necessidade de garantir uma transferência mais completa, dado o nosso mandato nacional.

O caminho é fortalecer a rede de parcerias com outras unidades da Embrapa que estão mais próximas dos polos produtivos. Vamos aproveitar projetos importantes, como o BRS Aqua, para unificar e melhorar a transferência das tecnologias geradas — tanto as nossas quanto aquelas de parceiros que podem colaborar com o setor.

A transferência será feita por meio de:

  • Projetos em rede.
  • Cursos presenciais e online que serão lançados em breve.
  • Plataformas digitais que já desenvolvemos.

Chegou o momento de levar esse conteúdo ao público final e realizar uma ação de marketing para que os produtores tenham maior conhecimento e acesso a essas inovações.

"Deixamos de ser o país do futebol para ser o país do agro. O Brasil virou essa referência e passou a ser reconhecido como o país que alimenta o mundo."

Antônio Oliveira - Dr. Roberto, a aquicultura e a pesca têm um potencial de crescimento significativo no Brasil. Quais são os principais gargalos de escala nacional que a Embrapa, sob sua liderança, priorizará para garantir um crescimento mais robusto e, ao mesmo tempo, sustentável desses setores?"

Roberto Valadão Flores - Os gargalos são muitos e variam conforme a espécie. Para a tilápia, que é a principal espécie produzida e consumida hoje no país e que já possui um pacote tecnológico mais avançado, os desafios prioritários são:

  1. Sanidade: Precisamos avançar nessa área. Estamos fortalecendo nossa equipe com a utilização do nosso laboratório específico e a contratação de novos pesquisadores.
  2. Economia, comércio exterior e consumo: Há uma grande ameaça de importação de tilápia do Vietnã e de países asiáticos, chegando a um preço mais baixo que o produto nacional. Precisamos entender essa dinâmica para garantir a competitividade do nosso produto e proteger as margens apertadas dos produtores.

No caso das espécies nativas (como tambaqui e pirarucu, principalmente), o nível tecnológico é mais baixo, exigindo pesquisas de base. Nossos focos aqui são:

  1. Melhoramento genético: Desenvolvimento de programas para o tambaqui e o uso de edição genômica para tornar o peixe mais atrativo ao produtor e consumidor, abrindo potencial para o mercado internacional.
  2. Reprodução e nutrição (principalmente do pirarucu): que ainda não estão bem desenvolvidas para essas espécies.

Estamos investindo e aprimorando todos esses projetos. Além disso, queremos levantar a bandeira do Baixo Carbono na aquicultura, que tem potencial enorme para gerar selos de consumo. Embora tenhamos desafios na mensuração em comparação com outras cadeias, esse é um investimento essencial para os próximos anos.

Antônio Oliveira - Como o senhor vê o papel da Embrapa, Pesca,  Aquicultura e Sistemas Agrícolas, na articulação de políticas públicas e na integração com o setor privado para resolver desafios de sanidade, regulamentação e mercado?

Roberto Valladão Flores - A Embrapa é frequentemente procurada para fornecer posicionamentos técnicos sobre temas como regulamentação, sanidade e meio ambiente. Como uma empresa pública com um corpo técnico altamente qualificado, temos a obrigação de dar respostas satisfatórias.

Além de manter um bom relacionamento e sinergia com todos os agentes da cadeia, é nosso dever fornecer informações técnicas precisas que possam balizar decisões políticas e setoriais. Em questões ambientais, por exemplo, geramos notas técnicas e participamos de discussões para garantir que as decisões não sejam prejudiciais nem para o setor produtivo nem para o consumidor.

Retomando um pouco o que mencionei anteriormente, as novas frentes de pesquisa essenciais para impulsionar a produtividade e a competitividade incluem:

  1. Baixo carbono: A certificação de carbono zero, neutro ou baixo carbono é um potencial de mercado enorme, incentivando o consumo e trazendo benefícios ambientais. No entanto, precisamos investir intensamente em pesquisas básicas de mensuração para gerar esse produto.
  2. Edição genômica: Sem dúvida, essa tecnologia é crucial para as espécies tropicais. Em curto prazo, podemos gerar um tambaqui sem espinha ou com maior crescimento.
  3. Tambaqui monossexo: Uma tecnologia já consolidada para a tilápia, que se mostra muito efetiva para o tambaqui, permitindo trabalhar apenas com as fêmeas, que crescem mais.

Acreditamos que, ao colocar essas tecnologias no mercado, teremos um ganho muito significativo para todo o setor.

Antônio Oliveira - Sua experiência abrange o MATOPIBA. De que forma a Embrapa Pesca, Aquicultura e Sistemas Agrícolas pode adaptar e focar suas pesquisas para atender às necessidades específicas de desenvolvimento da aquicultura e pesca nessa região de fronteira agrícola?

Roberto Valladão Flores - O MATOPIBA é uma fronteira agrícola com grande potencial. Enquanto os setores de grãos e pecuária já avançaram muito, a aquicultura ainda ocupa um espaço pequeno, mas tem enorme potencial de crescimento.

O Tocantins, por exemplo, teve um crescimento significativo de cerca de 30% na aquicultura no último ano, segundo o IBGE, mostrando essa capacidade. A região está se estruturando, com secretarias dedicadas e a chegada de empresas de engorda e processamento. O Sul do Maranhão também está em crescimento, e o Maranhão já é destaque na produção de espécies nativas.

Nossa estratégia é dupla:

  1. Foco em tecnologia: Continuar gerando tecnologia para as espécies mais adequadas à região, como o tambaqui, conforme já detalhado.
  2. Transferência de tecnologia local (projetos piloto): Embora tenhamos um mandato nacional, vamos aproveitar nossa localização na região para desenvolver projetos piloto e mais próximos. Isso permitirá a transferência de tecnologias que já deram certo em outros estados ou países, adaptando-as ao MATOPIBA. Isso é essencial para espécies como a tilápia, que tem potencial, mas cuja produção, por exemplo, no Tocantins, ainda não decolou como gostaríamos.

Antônio Oliveira - No contexto da aquicultura no MATOPIBA, o senhor enxerga a possibilidade de integrar a produção aquícola em sistemas agrícolas — como o ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) — para gerar sinergia e aumentar a rentabilidade dos produtores? Poderia dar um exemplo prático?

Roberto Valladão Flores - Sim, a integração de sistemas é uma visão promissora para o futuro. No meu doutorado, vi nos Estados Unidos o grande investimento em aquaponia, um sistema integrado onde a água com nutrientes dos peixes recircula para cultivar vegetais.

Aqui na Embrapa, estamos trabalhando com uma ideia similar, utilizando a água da produção de peixes para a irrigação de lavouras. Essa sinergia e o reuso da água são muito interessantes do ponto de vista ambiental, pois economizam água, e trazem ganhos técnicos ao fornecer nutrientes às plantas.

Exemplos Práticos:

  1. Projeto com a Codevasf: Estamos construindo uma estrutura em nossa unidade para um projeto de maior porte, testando sistemas de integração. Esperamos em breve transferir esse sistema para pequenos e grandes produtores.
  2. Sistemão (Adaptação para comunidades): Temos uma variação do nosso Sisteminha Embrapa, mais robusta e voltada hoje principalmente para aldeias e povos originários.

Há grande demanda do Estado por essas tecnologias. Estamos validando esses sistemas integrados para que possamos fornecer pacotes tecnológicos robustos e que possam ser utilizados em maior escala.

Pergunta - Em que medida o desenvolvimento da aquicultura na região do MATOPIBA pode contribuir para a mitigação de desigualdades sociais e para a geração de renda nas comunidades locais?

Roberto Valladão Flores - O MATOPIBA e a região do Cerrado têm sido o motor do crescimento do país nas últimas décadas, especialmente nos setores de grãos. O Tocantins e o MATOPIBA, em geral, seguem essa trajetória de grande crescimento econômico, visível nos indicadores de exportação e produção.

No entanto, devemos ter cautela e garantir que o desenvolvimento social acompanhe esse avanço. Embora o crescimento econômico seja evidente, precisamos analisar o quanto ele se reflete de fato na geração de emprego, renda e habitação para a população local.

Nosso papel como pesquisadores é justamente trazer soluções para que o crescimento seja mais bem distribuído. O potencial existe, mas é preciso que haja um cuidado para transformar esse crescimento em políticas públicas efetivas que cheguem a todos. Isso inclui investimento em escolas, alimentação escolar, geração de emprego e, principalmente, em reforma agrária, que é fundamental para o desenvolvimento inclusivo da região.

Antônio Oliveira – Tens visão de economista, sendo conselheiro efetivo do Corecon. Qual é o se olhar o papel da Embrapa enquanto motor de desenvolvimento econômico, regional e nacional?

Roberto Valladão Flores - A Embrapa é, sem dúvida, uma referência nacional e internacional em pesquisa agropecuária. Sua importância para o desenvolvimento do agro, especialmente no Cerrado, é inegável. Costumo dizer que o Brasil deixou de ser apenas o país do futebol para ser reconhecido como o país que alimenta o mundo, e a Embrapa tem um papel importantíssimo nesse ecossistema.

Se analisarmos os dados, a balança comercial brasileira é determinada pelos produtos do agro (soja, milho, carne etc.), e o Brasil se tornou um dos maiores produtores/exportadores globais. Isso não acontece por acaso; é resultado do investimento maciço em pesquisa, no qual a Embrapa é um pilar central.

Como novos gestores, temos a responsabilidade de dar as condições necessárias para que pesquisadores e todo o corpo técnico da Embrapa continuem seu trabalho. A comunicação com a sociedade também é crucial para demonstrar a importância socioeconômica do agro. Enxergamos esse papel e continuaremos investindo para manter o desenvolvimento e o potencial do setor.

Nota: Nesta oportunidade, nós da Cerrado Comunicação e Editora, responsáveis pelos sites Cerrado Rural Agronegócios e Piscishow & Avisuleite, parabenizamos a gestora Danielle de Bem Luiz, que passa o bastão para Roberto Valladão Flores, desejando-lhe pleno êxito em suas próximas missões. Foram cinco anos de trabalho dedicado — e até de sacerdócio — a serviço da pesca, da aquicultura e dos sistemas agrícolas, resultando em conquistas significativas. Ao mesmo tempo, desejamos ao novo gestor uma administração que consiga atender ainda mais aos anseios do Brasil, em consonância com os seus ideais. (Antônio Oliveira

 

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