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ESPECIAL CONGRESSO ABRAMILHO (II) ][ "O milho é produzido em cada município do país e seu volume pode superar o da soja", afirma Paulo Bertolini
Data de Publicação: 14 de maio de 2026 14:16:00 "O Brasil já é o segundo maior produtor mundial de sorgo e caminha para a liderança, oferecendo uma alternativa rústica e rentável para o produtor enfrentar o risco climático."
Resumo
Em entrevista exclusiva, o presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, analisa o impacto da "tempestade perfeita" no setor, o avanço das usinas de etanol no MATOPIBA, o protagonismo crescente do sorgo e os desafios de crédito no Plano Safra 2026/2027.
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Paulo Bertolini, presidente da Abramilho
(Foto: Antônio Oliveira/Cerado Rural Agro)
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Por Antônio Oliveira
Consolidado como uma tribuna estratégica para as cadeias produtivas de grãos, o 4º Congresso Abramilho serviu de palco para debates profundos sobre problemas e soluções que impactam o setor. Mais do que um evento técnico, o encontro funcionou como um canal de debate político essencial, estreitando a ponte com o Governo Federal para discutir o futuro da produtividade nacional diante de um cenário global desafiador.
Segue a entrevista.
Antônio Oliveira: Presidente, diante do atual contexto geopolítico do mundo e das condições de clima e tempo em todo o Brasil, na atual safra, como o senhor avalia a safrinha atual, a próxima safra de milho e o ciclo 2026/2027 para o grão no país?
Paulo Bertolini: Então, a ex-ministra e senadora Tereza Cristina, durante um dos nossos painéis, falou sobre estarmos vivendo o momento de uma “tempestade perfeita”. Vários fatores se juntaram neste momento de crise: as guerras na Europa e no Oriente Médio fizeram com que os fertilizantes encarecessem muito, o diesel também ficasse mais caro e houvesse dificuldade, inclusive, para conseguir comprar alguns defensivos. Do outro lado, estamos em um ciclo de baixa das commodities agrícolas, o que estreitou muito as nossas margens na agricultura e na cadeia como um todo — sendo o produtor o primeiro a sentir esse aperto.
Portanto, há uma tendência de redução de tecnologia na próxima safra, seja por indisponibilidade ou pelo custo desses insumos. Isso traz a possibilidade de redução de produtividade, o que pode fazer com que a oferta diminua no próximo ciclo de produção. Este ano, terminamos com cerca de 140 milhões de toneladas no ciclo 2025/2026, uma produção bastante expressiva. O Brasil atinge hoje 140 países com seu milho, o que demonstra e valida que o produto brasileiro tem qualidade e que produzimos de forma sustentável.
Paralelamente a isso, abre-se a perspectiva para o sorgo. O Brasil já é o segundo maior produtor mundial (deste grão) e está caminhando para se tornar o primeiro. A China abriu seu mercado para a importação do sorgo brasileiro; temos exportado também para a África e alguns países da América do Sul. Essa é uma opção bastante interessante para os agricultores em regiões com risco climático maior para a segunda safra de milho, ou para aqueles que, por alguma razão, perderam a janela ideal de plantio. O sorgo, por ser uma lavoura mais rústica, mais tolerante à seca e com custo de plantio por hectare inferior ao do milho, passa a ser uma alternativa viável. Ele também tem sido demandado para a produção de etanol, gerando o DDG a partir desse processo, que é altamente valorizado como proteína para a ração animal. São alternativas que surgem no mercado internacional e no consumo interno crescente, levando o agricultor a considerar o sorgo em seu ciclo de produção.
Antônio Oliveira: Há quem diga que a produção de milho no Brasil vai ultrapassar a de soja. O senhor compartilha desse pensamento. Em que se baseia essa afirmativa?
"Estamos atravessando uma tempestade perfeita, mas o milho e o sorgo são os pilares que sustentam a resiliência e a expansão da proteína animal e da energia limpa no Brasil."
Paulo Bertolini: Sim, porque o milho é produzido em todos os tamanhos de propriedade, desde a pequena, de subsistência — produzido e consumido no local em todos os municípios do país —, até as grandes propriedades com produção em escala e altos níveis tecnológicos. Além disso, o milho é cultivado em regiões que vão além das áreas de soja. O volume de produtividade por hectare do milho pode ser o dobro, ou até mais, do que o da soja. Então, na mesma área de soja, se você produz milho, terá um volume maior.
No Mato Grosso, a produção de milho já é um pouco superior à de soja. O Paraná está caminhando para isso. Esse movimento tem sido puxado pelo consumo interno crescente, seja para ração, industrialização (consumo humano) ou produção de etanol. As indústrias de etanol já consomem cerca de 25 milhões de toneladas de milho brasileiro neste ciclo e estão começando a processar também o sorgo, gerando o DDG, que é um produto fantástico na nutrição animal.
Antônio Oliveira: Presidente, temos no Brasil uma região que já não é mais a "nova" fronteira agrícola, pois já está consolidada, mas ainda possui muita terra a ser aberta. É o MATOPIBA, uma região em franco crescimento. Lá, estão sendo abertas novas plantas de processamento de milho e sorgo para etanol, como os exemplos da Inpasa em Luís Eduardo Magalhães (BA) e na região de Balsas (MA). Diante deste panorama, qual a sua perspectiva para o milho com o avanço dessas plantas de processamento?
Paulo Bertolini: Hoje o Brasil tem cerca de 30 unidades produzindo etanol a partir de milho e algumas também a partir de sorgo. Em fase de projeto ou construção, há outro tanto — mais de 30 unidades adicionais. Atualmente, o Brasil consome cerca de 25 milhões de toneladas de milho para esse fim; com essas novas usinas, é muito provável que esse consumo dobre nos próximos 5 a 10 anos.
Antônio Oliveira: Qual, então, ao seu ver, é o horizonte do milho e do sorgo, especificamente no MATOPIBA?
Paulo Bertolini: Acredito que há um potencial muito grande. Em regiões onde o risco climático é maior, o sorgo ocupará espaço e será uma alternativa segura na medida em que houver demanda. Tendo uma usina próxima, uma fábrica de ração ou um contrato de exportação garantido, o produtor passará a cultivar o sorgo com muito mais tranquilidade.
Antônio Oliveira: O agronegócio brasileiro, por meio da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), já fez ao Governo Federal sua proposta de recursos para o Plano Safra 2026/2027*. Qual sua expectativa para que o governo aprove o que está proposto pela CNA?
Paulo Bertolini: A questão do Plano Safra é que algumas linhas, especialmente as de investimento (e não as de custeio), possuem recursos hoje, mas eles não estão sendo aplicados. Não é por falta de demanda dos produtores, mas porque os bancos estão evitando o risco. Eles veem o negócio agrícola em um momento de maior vulnerabilidade e acabam não liberando crédito para investimentos que demandam longo prazo para amortização — como armazenagem, irrigação e maquinário. Isso está interrompendo um ciclo positivo de renovação de frota e ampliação de infraestrutura por falta de agentes financeiros dispostos a financiar o agricultor.
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Paulo Bertolini, presiente da Abramilho: "Futuro promissor para o
milho e o sorgo (Foto: Antônio Oliveira/Cerrado Rural Agro)
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Antônio Oliveira: Uma última pergunta: as cadeias de proteína animal, como avicultura, suinocultura e aquicultura, têm crescido muito. Como a Abramilho sente os reflexos desse crescimento na produção de milho e sorgo?
Paulo Bertolini: Essa demanda é crescente. Hoje, o consumo interno no Brasil já beira as 100 milhões de toneladas de milho. Isso vem da ração animal, da criação para pets, do consumo humano e da produção industrial de produtos derivados. Tudo isso nos levou a esse consumo de quase 100 milhões de toneladas por ano.
Antônio Oliveira: Não poderia encerrar sem perguntar: o que o senhor espera de resultados deste 4º Congresso Abramilho?
Paulo Bertolini: É uma porta que se abre para discussões mais profundas. Eu levanto os problemas, mas o setor como um todo precisa falar. Os produtores são uma voz importante, mas aqui temos outros elos: fornecedores de tecnologia, a indústria e o setor público. Estão todos discutindo e buscando alternativas para que possamos superar essa "tempestade perfeita" o mais rápido possível e retomar a tranquilidade necessária para a produção crescente de grãos e proteína animal no Brasil.
* Síntese do Plano Agrícola e Pecuário proposto pela CNA: Garantia de R$ 4 bilhões no orçamento do Programa de Subvenção do Prêmio do Seguro Rural. Recursos da ordem de R$ 623 bilhões para o Plano Safra 2026/2027, sendo R$ 104,9 bilhões destinados à agricultura familiar e R$ 518,2 bilhões à agricultura empresarial, com recursos exclusivos do crédito rural tradicional.
agronegócio — Abramilho — produção de milho — sorgo — etanol de milho — MATOPIBA — Plano Safra 2026/2027 — crédito rural — sustentabilidade — mercado chinês
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