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ICTIOLOGIA ][Estudo da UFSCar revela impacto global de peixes invasores em lagos
Data de Publicação: 11 de junho de 2026 09:41:00 Pesquisa internacional analisa 402 ecossistemas e mostra como espécies exóticas reduzem a biomassa nativa e alteram a estrutura trófica conforme o clima.
Resumo
Um estudo de pós-doutorado da UFSCar, apoiado pela Fapesp, compilou dados de 637 mil peixes ao redor do mundo. O levantamento concluiu que invasões biológicas diminuem a proporção de peixes nativos juvenis, achatando a pirâmide ecológica.
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Da redação
Espécies invasoras estão alterando profundamente a estrutura de comunidades aquáticas ao redor do mundo, modificando a proporção entre peixes de diferentes tamanhos e reduzindo a biomassa de espécies nativas, sobretudo as menores e juvenis. É o que aponta um estudo desenvolvido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no âmbito de um pós-doutorado financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). A pesquisa analisou 667 comunidades de peixes em 402 lagos distribuídos por regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo e identificou que os impactos das invasões biológicas variam conforme a temperatura dos ambientes e o nível trófico das espécies invasoras. A base de dados foi construída a partir de levantamentos em estudos já existentes e do contato com especialistas e grupos de pesquisa nacionais e internacionais. Ao todo, foram compiladas informações sobre o tamanho e peso corporal de quase 637 mil peixes.
- A diferença entre o número de comunidades e o de lagos ocorre porque alguns lagos puderam ser amostrados em diferentes anos. Assim, cada amostragem representa uma comunidade distinta, ou seja, um retrato da estrutura da comunidade, com organismos nativos coexistindo com espécies invasoras em um momento específico. Essa dependência entre amostras do mesmo lago foi posteriormente considerada nas análises estatísticas - contextualiza Barbbara da Silva Rocha, pesquisadora de pós-doutorado vinculada ao Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da UFSCar, sob supervisão de Victor Saito, docente do DCAm. Segundo Rocha, para garantir comparabilidade entre os ecossistemas, foram selecionados apenas trabalhos que utilizaram métodos semelhantes de coleta.
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Ilustração simulando um exemplar de
pirarucu no Pantanal da Gemini IA)
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- Variáveis ambientais, como profundidade, área, temperatura e concentração de nutrientes no lago, também foram incorporadas às análises - explica a pesquisadora.
O estudo identificou que comunidades submetidas a maior pressão de invasão apresentam uma estrutura de tamanho mais “plana”. Na prática, isso significa que a diferença entre a quantidade de peixes pequenos e grandes diminui.
"A introdução de espécies invasoras cria uma zona de exclusão ecológica que interrompe a renovação natural da nossa biodiversidade."
- Em ecossistemas saudáveis, normalmente há muitos peixes pequenos e poucos peixes grandes. O que observamos é que as espécies invasoras alteram esse padrão, aumentando proporcionalmente a abundância de peixes grandes ou reduzindo a de peixes nativos menores. Com isso, o número de indivíduos passa a diminuir de forma menos pronunciada à medida que o tamanho dos peixes aumenta, resultando em uma configuração mais ‘plana’ da estrutura de tamanho da comunidade - detalha Rocha. Ecologicamente, esse resultado é importante porque o tamanho corporal dos peixes está diretamente relacionado ao funcionamento desses ecossistemas.
- Mudanças na distribuição dos tamanhos dos peixes na comunidade podem alterar a intensidade das relações tróficas, a transferência de energia no ambiente e, consequentemente, a estabilidade das comunidades aquáticas.
A pesquisadora observou que todas as espécies invasoras avaliadas causam impactos negativos sobre as comunidades nativas, mas de maneiras distintas.
- Em geral, as invasões tornam a estrutura de tamanho das comunidades mais ‘plana’ e reduzem a biomassa das espécies nativas. No entanto, a intensidade desses efeitos varia conforme o tipo de invasor e a temperatura do ambiente - relata.
Nos lagos mais quentes, o impacto dos peixes predadores (piscívoros) sobre a estrutura das comunidades foi mais intenso. Já em ambientes frios e menos produtivos, invasores de níveis mais baixos da cadeia alimentar – como herbívoros (que se alimentam de plantas aquáticas), onívoros (que se alimentam principalmente de ambos plantas e pequenos invertebrados) e detritívoros (que consomem matéria orgânica em decomposição) – provocaram reduções mais severas na biomassa das espécies nativas, principalmente por competirem pelos recursos disponíveis.
Segundo Rocha, o aumento da temperatura acelera o metabolismo dos peixes predadores invasores, elevando sua necessidade de alimento e intensificando a pressão sobre as espécies nativas menores.
- Como os pequenos peixes nativos são alvos mais abundantes e fáceis de capturar, a pressão de predação se concentra desproporcionalmente sobre eles - descreve.
Nos ambientes mais frios, por outro lado, o problema parece estar menos relacionado à predação e mais à competição. Como a disponibilidade de recursos na base da cadeia alimentar tende a ser menor, espécies invasoras herbívoras, onívoras e detritívoras conseguem superar os peixes nativos na disputa por alimento, reduzindo significativamente sua biomassa.
Esse conjunto de impactos afeta principalmente os peixes menores e os indivíduos juvenis das espécies nativas, criando o que os pesquisadores descrevem como uma possível “zona de exclusão ecológica” para essas classes de tamanho. Segundo Rocha, o processo pode interromper a renovação natural das populações ao impedir que indivíduos jovens alcancem a fase reprodutiva, além de ameaçar espécies endêmicas.
- A perda desses peixes menores pode afetar diretamente a qualidade da água, além de comprometer estoques pesqueiros importantes para a alimentação e subsistência humana - aponta a pesquisadora.
Para os autores, os dados reforçam a necessidade de estratégias de conservação e manejo que considerem simultaneamente o contexto climático e o papel ecológico das espécies invasoras.
“Os resultados mostram que estratégias de monitoramento e controle precisam levar em conta tanto as características do ambiente quanto o tipo de invasor presente. Compreender essa interação permite direcionar esforços de conservação de forma mais eficiente e antecipar riscos à biodiversidade antes que os impactos se tornem irreversíveis - finaliza Rocha.
O estudo deu origem ao artigo intitulado “ Invasive fishes interact with temperature to reshape community size structure across climatic zones “, publicado na revista Global Change Biology, em colaboração com pesquisadores de instituições do Brasil, Espanha, Canadá, Reino Unido e França. O acesso pode ser feito em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1111/gcb.70884
#Publicação simultânea com o site Piscishow & Avisuleite.
UFSCar — Espécies Invasoras — Biologia Aquática — Fapesp — Barbbara da Silva Rocha — Impacto Ambiental — Biomassa Nativa — Ecossistemas de Lagos — Cadeia Trófica — Conservação da Biodiversidade
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